Contos da Panda: A Aparição de Robert Miller por Priscila Ramos

O conto da seguidora Priscila Ramos @brpriscilaramos. E vocês, já mandaram?


A Aparição de Robert Miller - Por Priscila Ramos



[4:15] Indicava meu relógio, dizendo que deveria estar dormindo e descansando. Robert morreu. Iriamos nos casar às 19:30 em Las Vegas hoje, mas ao invés disso irei ao seu velório, ao invés de branco vestirei o preto, ao invés de sorrir e dizer “Sim”, chorarei e direi “Não vá”, não posso, não tenho nem o direito de me classificar como viúva, como personagem principal de minha própria história romântica, trágica e sofrida.

A morte de Robert é um mistério para todos, milhares de especulações soam em meus ouvidos, os jornais, os amigos, a familia, os empregados e até mesmo eu. Ele foi encontrado morto, sem nenhuma
linha de vitalidade em seu rosto, em seu apartamento numa noite chuvosa de sexta-feira, não havia ninguém lá, nenhum sinal de luta, envenenamento ou doença já que meu noivo era saudável. Lembro-me das nossas cavalgadas no fim de tarde, dos passeios pela praia solitária, de quando Robert pediu minha mão, de quando nos conhecemos. Éramos dois estranhos, não só um com o outro, mas também entre si. Conhecê-lo era como conhecer o pedaço de minha identidade, nada mais era infante, a inocência havia partido, e para ele era a mesma coisa. Nós nos conhecíamos todos os dias, em todos os momentos, a cada olhar, a cada sorriso e movimento, a cada palavra e novidade, a cada abraço e doce beijo, a cada batida dos nossos corações que pareciam badalar uma mesma melodia aconchegante. Robert era a única coisa que eu possuía.

[5:40] O relógio soará em breve e logo mais tarde terei que ser forte, as pessoas virão e perguntas incomodas inundarão minha mente. Por que ainda insistem em perguntar se estou bem? Meu noivo está morto e com ele meu coração, embora esteja andando, falando e pensando, minha alma foi destroçada e levada à um novo mundo solitário. Definitivamente, estou morta.

O suave vinho desce por minha garganta, Robert tomava este vinho todas as noites após o jantar. O relógio soa. [10:45] O preto me cai bem. Sinto a seda roçar meu corpo enquanto a visto, minha criada termina de pregar uma presilha em meu cabelo.

– A senhorita é sempre tão bela, senhorita Valentin.

O que me vale a beleza externa, Eliza, se minha verdadeira beleza está pálida prestes a ser emborrocada num caixão a sete palmos da terra? Há tanta gente, todos me olham com pesar, tristeza e pena, todos me cumprimentam e dizem boas palavras, conforto era a última coisa de que eu preciso, só quero vê-lo pela última vez e guarda-lo dentro de mim, fundi-lo a minha paixão.

Todo o falatório é maçante, Robert recebe aplausos enquanto os coveiros terminam de cobrir o caixão. A volta é ainda mais deprimente que a ida. Dispensei os empregados pelo resto do dia e passei a tarde bebendo a safra 1777 que Robert tanto adorava.

[22:55] Um barulho impertinente me acorda. O som vem da adega, alguma garrafa deve ter caído, levanto-me e vou até o cômodo, não há nada. Volto para a cama, ouço o som mais alto, mais perto. Tranco a porta e adormeço.

[23:42] O som começa novamente, percebo que agora está aqui, em meu aposento, uma luz incessante inunda meus olhos. Ele vem até mim e vejo seu rosto, Robert está diante de mim.

– Quero ir com você.– Disse-lhe.

Ele segura minha mão e me leva até a janela. Ele pula a janela, mas não cai, flutua. Ele se afasta e me debruço sobre a janela com os braços estendidos tentando alcança-lo, um pouco mais pra frente e.. Consegui! Olho para baixo e vejo que havia alguém de fato em minha casa, agora se encontrava derramada na grama. Era meu corpo e com ele minha tristeza que agora deixo para trás.

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